O meu outro blog chama-se

30.4.05

www.Chamavam-lhe Trinitá.blogspot.com

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Frígio, mas um barrete

Para quando uma Maxmen ou uma FHM de esquerda? Até já tenho o nome, começa por «F» e tudo, que é «FCSH». É pá, espera lá, e daí talvez não. Era um barrete, frígio, mas um barrete. A miúda para fazer a primeira capa, essa, já está encontrada.

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31 de boca

Noutro tempo havia decoro. Não se falava destas coisas em público. Os acessos tinham-se no recesso do lar. Agora até anúncios fazem. Onde é que vamos parar com isto? Qualquer dia fazem anúncios ao «Pyralvex» e aí é que eu quero ver como é.

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Identificação de um país

29.4.05

«Sete anos de serviço nas secretarias dos governos civis tem-me confirmado na ideia que havia formado, de que nas repartições administrativas se escreve mais do que se pensa: nas superiores emprega-se a maior parte do tempo a reiterar ordens, repetir instruções e corrigir imperfeições dos trabalhos executados nas subalternas; e isto provém visivelmente, não só da notável desarmonia que se dá no sistema de expediente adoptado em cada uma, mas ainda mais da inaptidão dos empregados. É a rotina, morosa, complicada e muitas vezes irracional, que usualmente preside à organização dos trabalhos respectivos.»

[Augusto Ernesto de Castilho e Melo, governador civil de Bragança, 1858]

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O meu outro blog chama-se

www.
Hoje acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado
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guilty pleasures

28.4.05

Chama-me Norberto. Mais exactamente, Lurdes Norberto.

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isto está com falta de fotografias


[Julianne Moore, fotografada por Mario Sorrenti para a W]

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Melancómico

Não. Não gosto de links. Os links são maus. Fora com os links. Links para que vos quero. Não me venham com links.

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Olhe, era um sinónimo e uma sopa

27.4.05

Acédia e beldroegas.

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Terms of endearment

Aturadíssimos estudos revelaram que a resposta a esta pergunta é: you've got sleep in your eye.

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O meu outro blog chama-se

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Tuborg, me Jane.
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I say, you say

I say: don’t you know.
You say: you don’t know.

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O tédio

26.4.05

Aquilo que distingue a criança que brinca com o gato do gato que brinca com a criança é a possibilidade da criança se aborrecer com a brincadeira. Os bichos nunca se aborrecem. O gato ou caça, ou brinca, ou dorme. Ao contrário dos bichos, que ou se interessam ou dormem, o ser humano, ainda que possa alternar saudavelmente entre interessar-se e dormir, descobriu o tédio. (Joel Serrão, Temas Oitocentistas, vol. II, pp. 139-168).
Ora, isto é uma revolução de perspectiva. Ou melhor, um alívio. Até aqui, vivíamos sombriamente sob o espectro de uma outra noção, a de que aquilo que marcava a especificidade do ser humano era conceber a sua morte, era o ter consciência de si, como algo vivo e finito. O primeiro ser humano que sepultou outro ser humano entrou ipso facto para a história, acabando literalmente com essa coisa a preto e branco, a pré-história.
A mim, agrada-me a substituição da angústia posta permanentemente entre parêntesis pelo tédio como sinal daquilo que faz de nós humanos. Desde o século XIX, houve sempre quem visse na disseminação do tédio um problema: horas e horas desperdiçadas a cheirar rapé, a fitar o vazio, o nada ou a revolução. A comer tiras de milho e a ver televisão. Qual quê. Adormecer de aborrecimento, como tanto se vê por aí, é uma falta de maneiras, uma coisa bestial, tal como arrotar ou cair de borco. Quem adormece de aborrecimento verdadeiramente não está entediado, está prosaicamente com sono. Está, portanto, ao nível inferior dos bichos. Quem está entediado verdadeiramente não adormece. Aquilo que distingue o ser humano é, justamente, ao contemplar a era do vazio, não adormercer, mas, em seu lugar, nobremente entediar-se.
Nos anos sessenta, andavam por aí uns senhores a dizer que o tédio é sempre contra-revolucionário. Que é a forma moderna de controlo, por excelência. Guy Debord e amiguinhos não leram, infelizmente, o professor Joel Serrão. Antes pelo contrário, senhores da Internacional Situacionista. O tédio é aquilo que nos é específico, a nossa marca, a nossa condição. Como dizia Erich Fromm, citado por Joel Serrão, «O homem é o único animal que pode sentir-se aborrecido, que pode sentir-se expulso do Paraíso». (op. cit. p. 143).

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I come bearing flowers

25.4.05


Vespeira - 1975


Virtual flowers, unfortunately.

Twenty eight years and some hours ago, just a few blocks from here, tanks were rolling, the sun was coming up, and some young men were pointing guns at each other. They were all very nervous, many were very, very young, and many were crying. They were soldiers, and many of them were about to disobey orders. About to decide they would not, could not, shoot each other.

It was all so quick, and yet it seems like forever when you watch the films and read the reports. It was just one bright day for freedom to be born, but it was precarious forever. People filled the streets so quickly, so spontaneously, so completely, and when you see them now, hanging from trees, kissing each other, embracing strangers, standing on walls and tanks and yelling god knows what, yelling anything, laughing, when you see that now, it seems it was inevitable, and swift.

And yet, there were the all hours that Salgueiro Maia stood outside the Carmo, megaphone in hand, all the endless back and forth of conflicting information, all of the nervous shots, every dreadful minute until the end of the regime was agreed to, facetiously, by a regime that thought it would probably turn it all around the next day, every stinking minute of the parley with a minister who had shit his pants, every pathetic incident, taking headquarters and finding holes dug in walls, and the rats escaped, making the final awful concession of getting a general to hold provisional power so the power "would not fall on the street", never the street, which was so frighteningly alive with the people. It was forever that day. It was precarious, fraught and slow.

And beautiful.

And twenty eight years ago. Twenty eight years we have been free, twenty eight years we have been precarious and every negotiation has been fraught and slow.

In those old films, everyone looks young -- everything was, young, and new, and scary. Twenty eight years, and the commemorations are official, stodgy, reluctant, and forgotten.

Except. Except there will be people marching today, and there are going to be carnations in the hands of people who want to remember, and to keep it all young, new, and, yes, a little scary. Being free should be frightening, it should keep you awake.

That dawn, the flower sellers, who might have been taken with the euphoria of change, or taken with the handsome soldiers, or just plain realized they wouldn't be making money that day, started giving their flowers away. The soldiers, just boys, dazed, were waving carnations in the air, sticking them in their rifles, giving them away.

Bright and red, and unplanned, I bring them, to mark that first day.

Happy 25th of April!

Happy freedom to you all! And may you guard it well, and be awake.


[Susana Serras Pereira]

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24.4.05

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I say, you say

I say: I stay cos' I'm stuck.
You say: I'll never stay to say happy anniversary.

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Foi você que pediu?

Pode até suceder que esteja bem-disposto, isso é irrelevante. Considere o abismo que vai da alegria à felicidade. Agora, sente-se. Experimente escrever sobre como o seu actual amor, resplandecente, atlético, saudável, irá, inevitavelmente, acabar. (Eu disse «pletórico»? - Não, não disse «pletórico»). Insisto: não basta pensar nisso, é necessário escrever, agora mesmo. Ai afinal não queria deprimir-se? Ah, bom, sendo assim, pronto, está bem.

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Has been oficial

23.4.05

Transcrevo ipsis verbis a última linha da secção «Hoje Fazem Anos» do Público de ontem:
«Nobel da Medicina, 96; Iordanov, ex-».
Parabéns Iordanov, e não te chateies com isso, pá, que estás em boa companhia.


[podem ouvir o «Common People» aqui]

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O meu outro blog chama-se

www.
Capitão Américo. Um blog distópico.
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20.4.05



*

E a tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não.

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A incógnita

Se Jerónimo de Sousa está para o Partido Comunista Português como o Papa Ratzinger está para Igreja Católica, então Ratzinger será igual a Jerónimo de Sousa vezes a Igreja Católica a dividir pelo Partido Comunista Português.

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double standard

18.4.05



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O 25 de Abril

não aguenta nem mais um monumento fálico erigido em sua homenagem. Parem com isso porque são estas coisas que dão cabo de uma Revolução. Já tínhamos a pila de Cutileiro no cimo do Parque Eduardo VII (salvo seja). Agora, temos o monumento à resistência antifascista em Setúbal. Feito com bocados de pontão. Se pensa que estou a ver coisas, olhe que não: o setubalense Idaleciano Militão comentou, «Não acho assim muito jeito, não me faz lembrar nada». Como é que eu sei que Militão está a reprimir o facto do monumento lhe fazer lembrar uma pila? É que eu também já fiz o teste de Rorschach e disse exactamente o mesmo. Foi justamente para identificar elementos como eu e Militão que Rorschach inventou o teste. Ponhamos de lado o facto do monumento ser foleiro e de ser composto de bocados de pontão colados uns aos outros e concentremo-nos no facto do monumento fazer lembrar uma pila. Tanto, tanto que Idaleciano Militão teve que afirmar que não lhe fazia lembrar nada. É que já são duas pilas em nome do 25 de Abril. Enquanto símbolos, não são propriamente de difícil interpretação. Não é preciso ir chamar o Professor Bragança de Miranda. A Revolução apresenta-se activa, vigorosa, pontiaguda, forte, em suma, revolucionária e masculina. Pontões, portanto. Por contraste, a «longa noite fascista» exala passividade, imutabilidade e submissão, enfim, os lugares comuns associados ao feminino. Este monumento comemorativo do 25 de Abril, composto por bocados de pontão, mais não faz, como o de Cutileiro antes dele, que reproduzir o duplo-padrão, o estereótipo conservador contra o qual a revolução se fez, no próprio acto da sua comemoração. Já é suficientemente deprimente aquilo ser tão feio e feito de bocados de pontão colados uns aos outros, mas o pior é fazer lembrar não tanto uma pila, como uma pilinha. Eu sei que a nossa democracia ainda é uma criança, mas o mesmo argumento não impediu os franceses, que nestas coisas das revoluções não brincam em serviço, de oferecer aos norte-americanos o gigantesco obelisco de Washington em homenagem à deles.

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Ter a certeza das coisas

16.4.05

I could not evade my own certainty that the answer was right. It had the imperative quality of a hunch.

[Ursula K. Le Guin, The Left Hand of Darkness, p. 67]

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É que não se consegue ter uma conversa sobre outro assunto qualquer. Irra que é demais.

15.4.05

«A prática viciada frustra as melhores disposições, e se não esteriliza o espírito, vai neutralizar os salutares efeitos, que se derivariam do princípio legal.»

«A experiência, que educa o homem na prática de sacrifícios e provações, nem sempre o aconselha a perseverar e a combater os desvios do sistema, que preside à nossa organização social. De ordinário um abismo atrai outro abismo.»

[Relatório anual do governador civil de Aveiro, 31 de Janeiro de 1859, p. 3]

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Com a devida vénia

14.4.05


«Sentimentos de um ocidental
Fui ver o Assassínio de Richard Nixon. O filme deixou-me inquieto. O que seria do mundo livre se todos os tipos que não conseguem seduzir a Naomi Watts se pusessem a desviar aviões? Filipe»


Filipe Nunes e Mariana Vieira da Silva no Olha que não. Para já, temos o Professor Filipe Nunes p'rá li a falar sozinho. Sem contraditório, Mariana, sem contraditório.

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They've got the nuns, we've got the gunners

E de repente, ninguém é anti-clerical. Não fica bem. Há mais linces da Malcata do que anti-clericais. Não pode ser. O anti-clericalismo faz muita falta em Portugal. Faz bastante mais sentido do que ser anti-capitalista, anti-globalização ou de alter-do-chão e tem - repare-se bem nisto - pinta (ao contrário dos outros anti-ismos).

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Da série A minha família e outros animais

13.4.05

Tu és uma pessoa bravia. Parece que foste criado no monte. (passado um bocado) Estás mais magro.

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Naomi Watts

Acusação
Os factos são graves

Veredicto

Sem que me cevem despeitos pessoais e sem que me locuplete com o sacrifício da justiça e da moralidade, vejo a Naomi com o pézinho sempre a deslizar-lhe para o chinelo da Shania Twain foleira-e-pirosa-amiga-da-Dolly-Parton. A questão é que Shania Twain também está sempre a um pequeno passo da magnífica Naomi Watts de Mulholland Drive (veja-se o teledisco «Man, I feel like a woman» e aquele outro no deserto). A verdade verdadinha é esta: se, no Sky Captain and the World of Tomorrow, em vez da Angelina Jolie estivesse a Naomi, não teria sido necessário colocar-lhe uma pala no olho para que o Jude Law, a ela, preferisse a Gwyneth Paltrow. Ora, eu, como dizia o outro, hold this truth to be self-evident. Eis aqui, e com clareza inexcedível, a justa petting order daquilo que é verdadeiramente importante: primeiro, a Angelina sem a pala no olho; depois, a Gwyneth (da maneira que entender); terceiro, a Angelina com a pala no olho; depois, e só depois, a Naomi.

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Como é que se diz «ramela» em inglês?

12.4.05

A pergunta difícil de responder para todos aqueles que se julgam bilingues.
Sem ir ao dicionário. Nem ao Google.

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Breadcrumb trail

10.51. O Hansel e a Gretel tinham razão. Esta merda do pão de Mafra é muito bom.
11.30. Eu acho humildemente o mesmo.
11.37. É do caralho. Estou a comer agora mesmo.
11.38. Cito Rabelais.

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Reservados

11.4.05

- Quero ir para a cama contigo.
- Só estás a dizer isso porque queres ir para a cama comigo.

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Sou um lambe-botas


[Christy Turlington]

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HG 10937 V

9.4.05

O homem das fotocópias tem uma pulseira com uma pila que abana no ar enquanto ele me adverte, monocórdico, «se é antes de 1900 não posso fazer». Quando o homem estava nos microfilmes, e os óculos lhe caíam permanentemente do nariz, a pila na pulseira já lá estava, tilintando de cada vez que ele levava o dedo aos óculos para os ajeitar à cara. Pagar era um suplício. As mãos papudas e suadas a dar-me o troco. As cadeiras são altas demais para a altura das mesas ou o contrário. Eu estou mal sentado, toda a vida estive aqui mal sentado. As pernas não cabem, encolhidas doem e dobradas em cima do assento entorpecem. Parece que dantes as pernas eram mais curtas. As pessoas no refeitório são gordas e feias. Obscenamente, deixaram de se preocupar com o facto. O almoço é um hino à acumulação primitiva de omissão. Vestem fatos de treino para o trabalho e usam calças com laço no pé. Anda por aqui o professor doutor monárquico, barbudo e ubíquo. Cada sítio tem o Sousa Lara que merece. Todos lêem. Todos estão feios. Todos estão gordos. E todos estão sentados. Horas e horas a fio. A rapariga mais gira que aqui alguma vez vi era da securitas. Já cá não está, casou-se, que eu já perguntei. Há sempre alguma coisa de estranho. A maneira de rir deste, a paralisia facial daquela, o medonho gosto das roupas, a sensação permanente de que alguém vai começar a gritar. As poltronas afundam-se espontaneamente sob o peso de gerações de cus grotescos. Todos são normais e todos me parecem anormais; e todos pensam isso mesmo dos outros, suponho. There but for the grace of God go I. Um dorme, o outro arrota baixinho de forma a ouvir-se menos. Outro fala altíssimo ao telemóvel supondo que está a ciciar. Eles ouvem mal. Querem lá saber. Enquanto espera pelo que pediu, esta aqui ao lado olha-me com o buço medonho. Há pó, pó no ar, nas fichas, nos livros, nos gabinetes. As coisas têm um ar encafuado. A comida não é simplesmente má, é de não se conseguir tocar por nojo. Mas podemos lavar as mãos antes; antigamente, não se podia. Uma vez vi um senhor a lavar os dentes na fila do almoço com uma escova de pensão de estrada. Como nas aldeias, há o maluco da sala de leitura. Durante anos, havia um que se metia com as raparigas leitoras. Era horrível porque ele era maluco brusco e falava alto e elas eram todas feias, embora silenciosas. É mau dizer isto, eu sei, mas o elas serem tão feias tornava o assédio menos cobarde. Ele era maluco, mas e elas, qual era a desculpa delas? A Biblioteca Nacional é uma espécie de praia do Malhão distópica. No lugar de pranchas de surf, dioptrias e óculos graduados. Aqui respira-se estupor e pó.

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Parasol

8.4.05


[Priscilla Jenne, «Seated Woman with Parasol», óleo sobre tela, s.d.]

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Inverno

Sonhei que tinha que ligar à ficha as torradeiras, microondas e aquecedores necessários para rebentar o quadro de uma prisão com cadeira eléctrica. O da minha casa rebenta com um de cada, mas o dessas prisões não.

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Da série A minha família e outros animais

(avó recebe um presente da filha e da neta)
Escusavam de se estar a incomodar. Quando eu morrer, depois isto fica para vocês.

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The Kelly Family (in memoriam Rainier III)

7.4.05

Era uma vez um príncipe encantado, um nadinha feio. O príncipe tinha um grande brinquedo chamado Mónaco, mas não tinha com quem brincar, nem filhos a quem o deixar. Suspeitou que para isso precisava de mulher. O príncipe punha um ar vagamente antigo, e andava sempre com uma espada. Por estas razões, parecia aos americanos um perfeito europeu. O príncipe vagueava triste pelos salões da alta sociedade ianque à procura de esposa. Andava, andava e já desesperava, pois a espada lhe pesava e da prometida consorte, nada. No emaranhado de croquetes e corpetes em que cirandava, eis que avista uma mulher lindíssima com ar de princesa. Grace de sua graça. Casaram num fósforo, e ela viveu infeliz para sempre.
Do casamento nasceram duas meninas e um menino. As meninas são muito lindas. O menino é, hoje, careca. As meninas chamam-se Carolina e Estefânia e dão-se e não se dão bem. O pai delas não deixava a mãe fazer aquilo que ela mais gostava, que era representar. Por isso, Grace viu-se obrigada a fazer aquilo que mais gostava a seguir a representar, que era beber umas flautas e chupar uns burriés. O Mónaco é muito alto e tem estradas muito íngremes. Por isso, ou porque ia a guiar a Estefânia quando ainda era criança ou porque mãe ébria e filha discutiam, o automóvel despistou-se e matou Grace, mas a sua filha não.
Estefânia cresceu e tornou-se uma adolescente problemática. A irmã irradiava uma heterodoxia ligeiramente mais aceitável, por isso casou com um senhor italiano que pilotava barcos e que depois morreu e que se chamava Casiraghi. Estefânia não havia meio de ser igual à irmã, empinou o cabelo e teve uma banda rock. Fez telediscos. Por último, casou com Adam Perez. Jornais e revistas da especialidade rejubilaram justamente com o feito do português de gema Adam Perez. «Espetou-se um ovo em África», exultaram. Um verdadeiro foguetório de aldeia. De resto, foi assim, través de corajosas alianças matrimoniais, que chegámos a ter um rei sobrinho do marido da rainha Vitória. Já são muitos anos de Estefânia, e da sua encenada e subsidiada rebeldia. Apre.
A sua rebeldia de causas ajudou a tornar brancas as cãs do pai. O pai, por entre leituras de Daniel Sampaio, lá foi gerindo o brinquedo o melhor que sabia. Mas como o Mónaco é o único casino do mundo com hino, Fórmula Um, bilhete de identidade e família real autóctone, e porque a casa ganha sempre, foi enriquecendo cada vez mais. Deixou de usar espada, passou a usar de evasão fiscal. O carácter ligeiramente escandaloso do seu brinquedo atormenta de vez em quando as cabecinhas jacobinas dos gauleses. Mas o pior é que o Alberto não casa.

[escrito em 23-9-2003 para O Paisrelativo]

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Design for living


[Heaven is a place on heaven]

Sou, no fundo, como ela, um lambe-botas.

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Almas gémeas

6.4.05

Love will tear us apart. Não. Gentil Martins will tear us apart.

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Casais modernos



[daqui]

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O casamento

«Os matrimónios, fórmula consagrada, e núcleo primitivo das populações, à primeira vista pareceriam um indicador seguro que apontasse Eu faço samba e amor até mais tarde, pela progressão deles, a dos nascimentos, e tenho muito sono de manhã e pela dos nascimentos a dos habitantes. Mas escuto a correria da cidade subtraí os que arde matrimónios tardios, subtraí os infecundos mesmo quando e apressa o dia de amanhã contraídos na estação da nubilidade De madrugada a gente ainda se ama, descontai as ilusões e a fábrica começa a buzinar com que nos fascina a frequência O trânsito contorna a nossa cama dos casamentos nos países, onde a morte reclama, do nosso eterno espreguiçar dissolve mais frequentemente as uniões conjugais No colo da bem-vinda companheira, e a sua foice ceifa implacável no corpo do bendito violão e mais repetida os frutos da maternidade, Eu faço samba e amor até mais tarde ajuntai que 1/12 dos nascimentos e tenho muito mais o que fazer brotam à luz fora do grémio matrimonial Eu faço samba e amor até mais tarde, avultando mesmo a 1/3, e a ½ nas povoações mais densas e tenho muito sono de manhã, resultará que Escuto a correria da cidade/ que alarde as aglomerações humanas será que é tão difícil amanhecer? não são de nenhuma sorte proporcionais aos hymeneus Não sei se preguiçoso ou se covarde, que entre elas se celebram.»
debaixo do meu cobertor de lã
eu faço samba e amor até mais tarde
e tenho muito sono de manhã.
[António de Oliveira Marreca, Parecer e Memoria sobre a proposta, que apresentou o sr. Alexandre Herculano, para que a secção de sciencias económicas e administrativas redigisse um Projecto de Estadística por..., Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1854, p. 24] & [Chico Buarque, «Samba e Amor»]

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Da série A minha família e outros animais, secção especial Mas tu achas que eu sou o quê?

5.4.05

Mas tu achas que eu sou o quê? O teu paizinho?
ou
Mas tu achas que eu sou o quê? Um verbo de encher q’anda aqui?
ou
Mas tu achas que eu sou o quê? Sou um camelo, se calhar, não?

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E fizeram mesmo um manguito

«A minha mãe disse-me: os italianos estão contigo. E eu: nem todos, pouco mais de metade. E ela: não, todos. Vejo-o na rua, dizem-mo. E eu: não, mamã. Quando vinha para cá, um tipo fez-me um manguito. Sabes o que isso quer dizer? E ela: sim, que és o número um.»
[in La Reppublica, citado no Courrier Internacional, nº 0, p. 6]

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Se eu te estou a dizer que foi no Concílio de Latrão, caralho ©

4.4.05

Niceia (A.D. 325) foi o primeiro concílio ecuménico. Durou dois meses e dezoito dias e contou com a presença de 18 bispos. Em Niceia ficou decidida a fórmula para determinar a data da Páscoa e ainda que no Reino-Unido se deveria guiar à esquerda. O concílio de Constantinopla (A.D. 381) contou com 150 bispos e foi convocado contra os seguidores de Macedonius, que impugnavam a divindade do Espírito Santo. Foi em Constantinopla que se deixou cair a expressão «macedónia» e se passou a usar a actual «salada de frutas». Para grande escândalo, esta injunção canónica foi seguida à letra em todo o mundo cristão excepto em Itália, onde, ainda hoje, em qualquer trattoria, se pode pedir uma «macedonia». O terceiro Concílio, o de Éfeso (A.D. 431), no qual particparam cerca de 200 bispos, foi decisivo no domínio do combate cultural pop, ao criar as bandas de ye-ye «Peter, Paul & Mary» e «Santa Maria gasolina em teu ventre», tendo ainda definido a verdadeira unidade pessoal de Cristo, declarado Maria como a Mãe de Deus e renovado a condenação de Pelágio. Em Calcedónia (A.D. 451), 150 bispos, um papa e um imperador definiram as duas naturezas, divina e humana, de Cristo. Optaram ainda por embrulhar artisticamente as duas pernas de Cyd Charisse num tecido coleante por eles recém-descoberto, o collant, e, vistos os resultados, patrocinar uma marca de collants própria, que baptizaram «Calzedónia». Pela segunda vez em Constantinopla (A.D. 553), a costumeira centena e meia de bispos, e respectivos Papa e Imperador, não decidiram absolutamenta nada durante dias a fio. Ao invés, comeram caracóis e desentranharam toda a onomástica de «O Senhor dos Anéis». Em Constantinopla III (A.D. 680-681), os bispos, o Papa Ágato, o Imperador Constantino, e os Patriarcas de Constantinopla e Antióquia estiveram bem ao acabar com a pouca vergonha do monotelitismo, definindo as duas vontades em Cristo, a divina e a humana, como princípios de acção distintos. Mais importantes, porventura, e seguramente mais divertidas, foram as excomunhões de Sérgio, Sérgio Sousa Pinto, Pirro, Paulo, Macário, Macário Correia, Carlos Pimenta, e do nefelibata Joanaz de Melo. Decidiram ainda o grau de inclinação da Torre de Pisa, de forma a poder ser usado mais tarde em tudo o que fosse seduzir miúdas giras (daí a expressão «a little bit tower of Pisa whenever I see ya»). De volta a Niceia (A.D. 787), o sétimo concílio foi convocado pelo Imperador Constantino VI e pela sua mãe, Irene. As pessoas às vezes não sabem, mas quando se usa a expressão «Constantino, a fama que vem de longe», essa fama vem, precisamente, de Niceia e refere-se às monumentais discussões entre Constantino e a senhora sua mãe que impediram três centenas de bispos de decidir fosse o que fosse. Em Constantinopla (A.D. 869), o extraordinário poder intelectual de 102 bispos, 3 legados papais, 4 patriarcas e 1 imperador foram aplicados a derrotar o cisma de Photius e a decidir o que «C.» quer dizer no nome «C. Thomas Howell». No concílio de Latrão, caralho (A.D. 1123), 900 bispos e abades reuniram-se para discutir a melhor maneira de recuperar a Terra Santa aos infiéis. Para esse efeito, inventaram as primeiras «palavras cruzadas», mais tarde conhecidas apenas pelas «cruzadas». O estratagema (distraí-los a ler palavras cruzadas enquanto nós-pimba) não foi totalmente bem sucedido. Embora as palavras cruzadas se tenham enraizado firmemente nos ocidentais hábitos de leitura, a Terra Santa continua da mão dos infiéis. No segundo concílio de Latrão (A.D. 1139), acabaram-se com as heresias de Arnaldo de Bréscia, despromovendo o Brescia à serie B e dando um gelado ao Arnaldo. Infelizmente, os seguidores de Arnie reemergiram na Áustria, mais precisamente em Graz, e novamente na Califórnia. O terceiro concílio de Latrão (A.D. 1179), o undécimo, esclareceu, face à dúvida geral, o que «A. D.» queria dizer. Em Latrão IV (A.D. 1215), estiveram presentes o Papa Inocêncio III, os Patriarcas de Constantinopla e Jerusalém, 71 arcebispos, 412 bispos e 800 abades. Unanimemente reconhecido como o mais importante concílio da Idade Média, Latrão IV decidiu que, de futuro, seria reconhecido unanimemente como o mais importante concílio da Idade Média.

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sitemeter

3.4.05

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Da série A minha família e outros animais

- Já te disse para não andares pela casa a lavar os dentes. É que tenho que estar sempre a repetir as mesmas coisas.

posted by rui at 3.4.05

One of the Johns (a propósito de The Filth and the Fury)

Sid Vicious espanta por não ser nada, ser informe, ser em branco. Ele é um blank a preencher por quem quer que seja, pelos outros. Uma tabula rasa para a rebeldia dos outros. Porventura, algo menos que isso e a projecção alheia não funcionaria, antes encalharia nele. E ele não seria este tremendo cromo de sucesso (as circunstâncias da sua morte e da de Nancy selaram a coisa). O Vicious, aparentemente tonto, podia até não saber mais nada, mas isso, ele sabia.

posted by rui at 3.4.05

Grande teste Que gaja que deu cabo de uma banda pop/rock é você?

2.4.05


[Foto do casamento de Ian e Deborah Curtis]*

a) Yoko Ono
b) Nancy Spungen
c) Deborah Curtis
d) Pedro Passos Coelho

Chave:
Se você escolheu a), é a Yoko. Se escolheu b), é a Nancy. Se escolheu c), é a Deb. Se escolheu d), há algo de profundamente errado consigo.

* «Whether it was intentional or not, the wives and girlfriends had gradually been banished from all but the most local of gigs and a curious male bonding had taken place. The boys seemed to derive their fun from each other.», in Deborah Curtis, Touching From a Distance, Faber and Faber, 1995, p. 77.

posted by rui at 2.4.05

Da série A minha família e outros animais

1.4.05

- Ai é o que tu pensas...? Então a partir d'agora vou sempre dizer o que é que eu penso.

posted by rui at 1.4.05